Pequenos gestos de comunicação e responsabilidade social

Depois de largos meses de silêncio (por preguiça apenas), eis-me aqui de novo movida pelos últimos acontecimentos da vaga de migrantes e refugiados que tanto têm gerado buzz nos meios de comunicação, particularmente nas redes sociais. À parte destes tristes exemplos de desumanidade, prefiro continuar a pensar (com a minha ingenuidade) que há esperança, com a consciência de que não posso mudar o mundo mas que posso fazer a diferença, começando com quem me está mais próximo.

Vejo constantemente campanhas que me fazem continuar a acreditar nisso mesmo e que mostram pequenos gestos de humanidade. É disso exemplo a aplicação Watch to Donate. Basicamente só temos de adicionar essa funcionalidade e ver os vídeos publicitários no Youtube até ao fim, o que se converte em dinheiro para ajudar o Nepal que sofreu uma série de terramotos há poucos meses (saber mais aqui); dinheiro esse doado pelas empresas anunciantes. Se pensarmos na quantidade de vezes que saltamos os vídeos publicitários…

Falo também de um festival de música que aceita a doação de sangue como pagamento pelos bilhetes. O Untold Festival (Roménia) convidou o público a literalmente dar sangue pela música, pagando os bilhetes do festival através de doações de sangue para o Banco de Sangue da cidade da Transilvânia (saber mais aqui).

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Posso ainda referir o “Imprima Para Ajudar”, um projeto apostado em multiplicar a divulgação de cartazes de pessoas desaparecidas, uma parceria entre a HP e a organização Mães da Sé (Brasil). Bastava para isso que as pessoas registassem a sua impressora HP no site e, assim, sempre que alguém desaparece, a organização Mães da Sé envia cartazes para a rede e eles são impressos automaticamente pelas impressoras registadas na região onde a pessoa desapareceu.

E mesmo a tempo de fechar este texto, chegou até mim um artigo que fala do projeto da empresa britânica Café Art, que distribuiu 100 máquinas fotográficas descartáveis Fujifilm por pessoas sem-abrigo em Londres em Julho e pediu-lhes que tirassem fotografias com o tema “My London” (ver o resultado aqui). A ideia é escolher as 13 melhores fotografias para se convertem num calendário 2016 para apoiar o projeto.

Sim, eu sei que estas campanhas não vão resolver os estragos dos terramotos, não vão fazer com que pessoas deixem de desaparecer ou tirar todas as pessoas das ruas, mas já é melhor do que não fazer nada. Digo eu na minha ingenuidade. E temos aqui alguns exemplos de como a comunicação e a publicidade podem ser usadas para boas causas e impulsionar a responsabilidade social das empresas e da sociedade.

Logótipo: aquele que dá a cara e muito mais

Para ‘o comum dos mortais’ um outdoor publicitário é um outdoor publicitário, seja da Coca-Cola ou de um carro… todos têm a mesma ‘aparência’. É aquele painel de publicidade exterior, de grandes dimensões, que já estamos tão habituados a ver à beira das estradas ou nas fachadas de grandes edifícios. Mas, há pouco mais de um mês, a agência criativa WMcCann ‘pôs a rolar’ um outdoor bem diferente no Brasil. Já se imaginaram a fazer aquelas fantásticas manobras de skate ou bicicleta no logótipo da Coca-Cola?! Pois é! Eles proporcionaram isso mesmo colocando uma rampa com o formato do logótipo da Coca-Cola num parque desportivo no Brasil (saber mais aqui). É verem por vocês mesmos:

O logótipo é mesmo uma peça fundamental na identidade visual de qualquer marca; o logótipo pode ser considerado como «aquele que dá a cara pela marca», ou «aquele que cria a primeira impressão», junto do consumidor. E as marcas estão sempre à procura de novas formas para «envolver» os consumidores/utilizadores. Foi neste sentido que, quando a famosa marca de rum cubano Bacardi quis apresentar o seu novo logótipo levou a celebração para as ruas de Amesterdão com uma acção impressionante onde os protagonistas, como não podia deixar de ser, foram os morcegos (saber mais aqui). Ora vejam:

O website Tumblr percebeu mesmo o potencial do logótipo de uma marca e foi mais longe ao colocar o ponto final do seu logótipo à disposição de patrocinadores em dias especiais como o Dia dos Namorados, o Dia do Pi, e eventos como o Mundial de Futebol. “The Sponsored Dot is a natural evolution of what we’ve been doing,” afirmou o representante do website Lee Brown (saber mais aqui). O exemplo que têm abaixo refere-se ao Dia Nacional do Café (EUA), onde se pode ver um pequeno copo de café da Starbucks em vez do habitual ponto do logótipo do Tumblr.

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Se dúvidas ainda houvesse sobre o potencial do logótipo no «envolvimento» emocional dos consumidores/utilizadores com as marcas, ainda em agosto passado li um artigo no adNEWS que contava que centenas de internautas, de forma espontânea e independente, resolveram homenagear o Instagram recriando o seu logótipo. As criações iam sendo divulgados com a hashtag #myinstagramlogo; podem consultar algumas delas aqui.

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E vocês? Estão log(on) nisto?

P.S.: O ano de 2014 foi fértil em renovações de logótipos de marcas e a PM Digital compilou, numa infografia, aquelas que considerou as 11 maiores transformações de logótipo em 2014. Airbnb, Reebok, Netflix e Pizza Hut são algumas das marcas que se encontram entre os grandes makeovers de 2014, como podem ver aqui.

Quando as marcas nos chamam pelo nosso próprio nome

Quando nos cruzamos com alguém conhecido, fica sempre bem cumprimentar a pessoa dizendo o seu nome próprio; desde pequenos que ouvimos dizer que é importante tratar as pessoas pelo seu nome. Aliás, a Starbucks e a sua «política» de escrever o nome dos clientes nos seus copos veio mostrar ainda mais que a personalização é uma das palavras-chave do mundo moderno. É que as pessoas gostam mesmo disso (até já cheguei a pensar se as pessoas vão lá só para passarem por essa experiência de verem o seu nome num copo da Starbucks!)… E sempre que o funcionário escreve o nome mal, as pessoas não perdem tempo em anunciá-lo nas redes sociais para os seus amigos (até o comediante Paul Gail fez um vídeo humorístico onde tentou explicar porque a Starbucks escreve o nosso nome mal no copo).

Talvez tenha sido por isto tudo que, este verão a Coca-Cola trocou o icónico logótipo das suas garrafas por centenas dos nomes próprios mais populares. Como podem ver pelo vídeo abaixo, “Share a Coke” foi a campanha que chegou a mais de 50 países, convidando os fãs a encontrarem os seus nomes, e os nomes de membros da família, amigos, colegas.

Tratando-se de uma campanha que pretende ser um impulso para as pessoas partilharem momentos de felicidade com a sua família e amigos de uma forma especial, a Coca-Cola também disponibilizou latas personalizadas para partilhar com as pessoas mais importantes da vida de cada um: “A tua mãe”, “O teu pai”, “A tua avó”, “O teu avô”, “O teu irmão”, O teu marido”, “A tua mulher”, A tua namorada”, “O teu sogro”, “O teu amigo”, “A tua chefe” ou “O teu vizinho”. Estas latas podiam ser encontradas nos hiper e supermercados, cafés e restaurantes. Paralelamente, a Coca-Cola promoveu uma espécie de roadshow pelo país para a personalização das latas, tal como aqui escrevi há cerca de duas semanas atrás (ler post aqui). Claro está, a campanha foi dada a conhecer através de publicidade na televisão e publicidade exterior, bem como nas redes sociais e no website (ver aqui).

A verdade é que diariamente temos contacto com diversas pessoas que cumprimentamos mas quase nunca sabemos o seu nome, como por exemplo, os motoristas de autocarro, seguranças, porteiros, aquele funcionário(a) simpático(a) onde vamos sempre tomar o café ou comprar o jornal. E por isso mesmo, e aproveitando a campanha da personalização dos nomes a decorrer, a Coca-Cola não perdeu a oportunidade e pensou numa forma diferente de agradecer e dizer obrigado a essas pessoas (ler mais aqui). Ora vejam como tudo aconteceu nas Filipinas no vídeo abaixo:

Com esta campanha a Coca-Cola conseguiu até ver as suas vendas aumentar, pelo menos nos EUA como nos reporta o The Wall Street Journal.

E vocês? Gostam que vos tratem pelo vosso nome?

As marcas a “brincarem” com a temperatura

Em vez de dizerem aos consumidores quais os benefícios dos seus produtos, há marcas que optam por deixar que os consumidores obtenham a experiência por si próprios dos benefícios dos produtos. No fundo, a ideia é dar uma imagem do que as pessoas podem ganhar ao adquirirem os seus produtos… e que melhor do que «brincar» com a (nossa) temperatura?!

Com as altas temperaturas que se fazem sentir no verão em Atenas, a Ice Tea configurou uma paragem de autocarro situada em frente a uma biblioteca pública numa «Cool Down Stop», refrescando assim todos os que por ali passavam. Oram vejam como:

 

Já no Canadá, a Duracell apostou em aquecer os dias gélidos de inverno. Foi construída e colocada na rua (também!) uma paragem de autocarro com aquecimento… mas que só funciona através do calor humano. Vejam como funciona:

 

E vocês? Are you hot or cold?

O papel de Cinderela é para os clientes

Andava eu um dia destes a passear numa rua de comércio tradicional quando os meus olhos foram «atraídos» por uns sapatos em muito mau estado, rotos até. Isto não tem nada de estranhar (dirão vocês!), não estivesse eu a olhar para os sapatos de uma funcionária de uma sapataria! É que o mínimo que se poderia esperar no atendimento aos clientes de uma sapataria seria que os seus colaboradores estivessem «bem calçados».

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O mesmo poderia dizer de um salão de cabeleireiro onde as colaboradoras andam com o cabelo todo desmazelado… Afinal, as pessoas que estão no atendimento ao cliente são a “cara” do negócio. Que imagem transmite uma sapataria onde os seus funcionários andam com sapatos rotos ou um salão de cabeleireiro onde a pessoa que nos vai arranjar o cabelo é que precisa de um «arranjinho»?! O que pensariam vocês desta sapataria e deste cabeleireiro? Mesquinhos ou não, estes (pequenos) fatores acabam por ter influenciam no nosso processo de decisão de compra/comportamento de consumo. Na falta de um “selo de confiança”, como podem os comerciantes despertar o nosso interesse?

E vocês? Já passaram por experiências (desmazeladas) como esta?

As embalagens como fatores chave de compra

Nos últimos tempos tenho-me apercebido da tentativa de algumas marcas em serem criativas com as embalagens dos seus produtos de forma a acrescentar valor para o cliente, conjugando design e utilidade.

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Falo da Nescafé que apresentou uma tampa que também é despertador. Para «revolucionar» a experiência de beber café, a Nescafé converteu a tampa da sua embalagem de café num relógio-despertador, que só desliga com a abertura da embalagem (ver vídeo)… uma boa forma de dizer “Desperta com Nescafé”!

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E a marca de água francesa Vittel que surpreendeu com uma tampa de garrafa que nos «avisa» quando temos beber água. Sabendo que as pessoas têm uma vida tão agitada, que até se esquecem de beber água, a Vittel avançou com uma tampa que nos lembra de beber água a cada hora. Ora vejam no vídeo abaixo como funciona:

“Muitas vezes o acto de compra é decidido não pelo produto mas pela sua embalagem (…)”, já dizia Luís Rasquilha no seu ebook Gestão de Clientes e CRM (2008). Posto isto, neste mundo concorrencial, onde procurar valor? Precisamos de olhar com novos olhos para as coisas que já estão à nossa volta… Porque é que uma tampa não pode ter outras utilizações?! É neste ponto que a Nescafé e a Vittel marcam a diferença.

E vocês? Que outras utilizações dariam a uma tampa?

Nada combina melhor do que sapatos e maquilhagem

A um sábado de manhã dei com uma sapataria com as portas fechadas, mas com (muitas) pessoas lá dentro… Havia mulheres sentadas à volta de umas mesas, voltadas para alguém que lhes falava de pé. Percebi depois, por um cartaz afixado na porta, que se tratava de um Workshop de maquilhagem. É isso mesmo, estava perante um Workshop (de maquilhagem) em plena loja comercial (sapataria). Passei por uma daquelas sensações, tipo de quem bebe Coca-Cola pela primeira vez, “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

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Tinham encontrado ali a «combinação perfeita». Afinal, quando se trata de mulheres, nada combina melhor do que maquilhagem e sapatos. Parece-me mesmo um conceito a replicar. Já estou a imaginar Workshops de Origami em Papelarias, ou Workshops de Cake Design em Lojas de brinquedos para crianças, ou até Workshops de Organização de Eventos em Lojas de vestidos de noiva.

Não sei se esta ideia surgiu de forma aleatória ou se houve por detrás um estudo das necessidades e dos desejos dos consumidores da sapataria em causa mas, a verdade é que, no final de contas, acabou por se adequar às características dos seus «principais compradores» … E é um momento que pode ser aproveitado para interagir com os consumidores (conhecê-los mais e melhor). Ademais, parcerias como esta (onde se dão sinergias operacionais) são vistas como vantagens valorizadas pelos consumidores, uma vez que lhes proporcionam «momentos especiais»… são “aquele bocadinho mais de serviço” que Tom Hopkins falava no seu livro Como vender em tempos de crise.

E vocês? Que «combinação» fariam?